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CONTO “UM DESEJO DE NATAL”

 

Seria basicamente difícil de entender uma cabeça anuviada em época de Natal. Como entender quem odeia frio, morar em Nova York. Somente a paixão pela profissão. Jane era figurinista que estrearia uma peça na Broadway. Como entender um coração que clama por um sonho, se vive no mundo real. Como entender alguém que odeia o Natal, mas chora quando ouve White Christhmas; somente vinda de quatro anjos que lhe atormentavam a alma como açoitadores. E apesar de se emocionar ao ver a árvore gigante do Central Park, a cidade iluminada mais que o céu coberto de estrelas brilhantes e comprar tudo que é bagulhinhos de enfeites, estava com seus nervos à flor da pele como brasa em chamas pela chegada do dia de Natal, que ela inexplicavelmente odiava.

Como entender um coração que clama por um sonho, se vive no mundo real. Seu semblante carregava-se de uma tristeza, de um descontentamento inerte frente às belezas infindáveis que se punham ao seu redor. Razões obscuras em seu coração que carregava um amor platônico. Quem? Ninguém sabe. Como? Não se sabe. O que fazer? Muito menos.

Sua amiga Virgínia com a qual dividia apartamento, lhe trazia a alegria ou talvez a infelicidade de compartilhar do mesmo sentimento, não pelo mesmo homem, mas com o mesmo fundamento. Ambas percorriam as mesmas veredas do incompreendido, do amor impossível, da beira da loucura, tanto que se tornaria cômico ao cético. Acreditar numa mágica do destino? Quem sabe. Quando que o destino se encarregaria de pregar uma peça encantada? A magia responderia.

Ao compartilhar com a amiga seus anseios e desejos de Natal, Jane busca o consolo e uma saída, suas mentes brincalhonas buscam nas sucumbidas páginas do mistério a solução para realizar seus sonhos. Um pedido de Natal?Um conto de fadas?

Naquela manhã de 23 de dezembro estava um dia cinzento e congelante, a neve havia parado de cair, mas a cidade estava esbranquiçada. Jane e Vir, como ela a chamava, estavam em casa tentando arrumar o controle da calefação, que parecia estar desregulado, pois o apartamento estava parecendo estar mais frio dentro, que fora. Haviam colocado uma belíssima árvore de Natal carregada de enfeites coloridos no canto da sala e suas luzes piscavam como vaga lumes da floresta.

-Ai Jane, quer parar de tremer? Pelo amor de Deus está me dando um nervoso. – Virgínia disse jogada no sofá e futucando no controle da calefação.

-Eu não consigo, estou me sentindo um pinguim num iglu.Eu preciso de um café urgente, senão vou morrer. Pelo amor de Deus, você não consegue arrumar este treco do controle de calefação do apartamento?

-Está difícil.

-Eu já tentei e nunca acerto estes botões. Devia ter um liga e outro desliga, nem sei para que tantos. Parece um videogame.

-Ai, eu estou tentando, mas também não sei mexer direito nesta coisa, e tem café na cafeteira.

– Ok, mas coloque uma música, por favor.

Vir ao colocar seus cantores prediletos, o Il Divo, para tocar, fez com que aquelas vozes maravilhosas saltassem como flechas que atingem diretamente no coração e ensurdecesse  os ouvidos, remetia as amigas ao mais puro êxtase dos sonhos. O apartamento com suas janelas imensas com vista para a Estátua da Liberdade virava o Jardim do Éden com seus mais gloriosos encantos, levando a mente a ultrapassar qualquer barreira do imaginário. Naquele momento ouvir Every time I look at you era levar a sonhar com aqueles rostos que pareciam estátuas gregas esculpidas pelas mais hábeis mãos artesãs.

-Ai meu Deus! Quando eu escuto esta música parece que vou ao céu e volto, tenho vontade de gritar. Odeio Il Divo.

-O que? Odeia? – Vir perguntou sem entender nada, olhando-a com uma cara de espanto.

-É, homens lindos que dá vontade de me enforcar num pé de cebola, vozes maravilhosas que dá vontade de me jogar de um avião sem pára-quedas e músicas lindas que me dá vontade de ser a maçã envenenada da branca de neve. Ai odeio amar estes homens ridículos.

-Jane, você dormiu sem coberta hoje? Está com um humor do cão.

-Estou, odeio Natal, vou tomar um porre e dormir babando.

-Ah eu não te entendo, você colocou a árvore, comprou um monte de besteiras, papai noéis e reninhas e diz que odeia o Natal? Quer me explicar porque odeia tanto a noite, o dia de Natal, sei lá?

-É verdade, adoro os preparativos, as luzes, enfim, tudo. Mas odeio a noite e o dia de Natal, me dá dor de barriga.

-Por quê?

-Porque nunca ganho o presente que eu peço.

-Estou vendo, mas se você pedisse algo que pudesse ganhar quem sabe ia gostar mais do Natal.

-Ah ta, impossível.

-O que vai querer ganhar este ano?

-O de sempre.

-E por acaso, o que seria este sempre?

-Ganhar um beijo do Urs.

-Todo ano você faz o mesmo pedido?

-Faço.

-Ai… Eu queria ganhar do Carlos.

-Tô sabendo…

-Quem sabe acontece um milagre e este a gente ganhe, heim? – Vir disse estampando um sorriso no rosto. Jane a olhou estreitando os olhos, as duas se encararam por um minuto e mudaram o semblante fazendo beicinhos.

– Aaaaiiii, never…. – gritaram as duas juntas em som de negatividade e tristeza.

-Então, eu acho que você vai continuar odiando o Natal.

-Argh, com certeza eu vou.

-Jane, vamos àquela loja que eu te falei?

-Vamos, quem sabe encontro um livro vudu que faça realizar algum desejo.

-Ai… Sei lá o que vai ter lá, mas a gente pode achar alguma coisa interessante, se não funcionar pelo menos nós vamos ter algo para rir depois.

-Sim, claro. Duas patetas fazendo brincadeirinhas mágicas.

-Ah… Mas não valeria a pena tentar para conseguir nossos desejos?

-Ah eu tento de tudo, mas isso é ridículo.

-Jane, já pensou você dando um beijo daquela boca linda do Urs?

Jane pensou um pouquinho, olhou para a amiga com uma cara de pelo amor de Deus e gritou.

-Vir… Vudu neles.

Ambas riram como crianças e foram correndo pegar seus sobretudos, luvas e mantas para enfrentar o frio da rua e ir atrás de seus destinos.

A partir daquele momento as meninas estavam adentrando por caminhos desconhecidos e inimagináveis, a um passo do mundo mágico do Natal. Sem saber o que lhes aguardava, começariam a viagem mais mágica que as duas poderiam sequer sonhar em desfrutar e que seria banhada pelas suas mentes brincalhonas e atrapalhadas.

Andaram pela 5th avenida e entraram em um beco, as duas se engancharam de medo ao ver aquele clima surreal de um filme de terror, o beco era meio escuro e pairava um estranho nevoeiro.

-Ai que mórbido, é este o endereço? – Jane disse olhando ao redor.

-Aqui diz que sim.

-Minha nossa, arrepiou até meus pelinhos íntimos. Vamos voltar, isso parece um filme do Jack o Estripador.

-Ai deixe de ser medrosa, já que estamos aqui vamos lá, é por uma boa causa.

-Boa causa seria tipo o quê?

-Divos… – as duas falaram em coro se olhando e rindo.

Foram até o fim do beco e viram a loja, deram mais uma olhada ao redor e entraram devagar. Aparentemente a loja estava fazia, olharam temerosamente ao redor vendo entulhos e mais entulhos de quinquilharias de todo tipo e religiões, pilhas e pilhas de livros que pareciam ter um milhão de anos. Com umas caras meio desconfiadas começaram a bisbilhotar.

De repente um homem com os cabelos desgrenhados, usando um tapa olho e horripilante veio atendê-las.

-Desejam alguma coisa?

-Aaaaahhhh… – as duas gritaram se agarrando de susto quanto viram aquela figura saída de um filme de terror.

-O certo seria dizer sim e não gritarem. Não tenho um olho, mas tenho dois ouvidos, portanto não sou surdo.

-Aam, oi… Desculpe. – Jane respondeu gaguejando.

-Em que posso ajudá-las?

-Ham, é, bem, viemos ver se tinha algo assim tipo, sei lá, algo parecido com um encantamento? Para conquistar quem não se pode ter? –  Jane disse ainda apavorada com a imagem grotesca do atendente.

O homem levou a cabeça para trás e soltou uma gargalhada fúnebre que ecoou na sala e bruscamente parou virando a cabeça rapidamente e olhou seco para elas.

-Tenho.

Ele foi para trás da loja e trouxe um livro e entregou a elas. Elas leram o nome que estava na capa e se olharam.

-Ai, mas que porcaria é essa? – Jane perguntou estupefata.

-Desejo de Natal? – Vir leu alto.

-Vir,  isso aí é um charlatão. – Jane sussurrou no ouvido da amiga.

-Eu ouvi isso, mocinha. Acontece que estamos no Natal, e se você fizer exatamente o que diz aí vai realizar seu desejo. Dizem que  este livro é mágico.

-Uhm,mas  não era isso que eu vim procurar. – Jane resmungou decepcionada.

-Não tenho nada mais para lhe oferecer. – ele olhou fixamente para Jane.

-Por que me olha assim? Não foi com minha cara, não é? Pois também não fui com a sua.

-Vou levar. – Vir disse pegando dinheiro na bolsa.

-Vai nada. – Jane puxou o livro de sua mão.

-Vou sim, já que viemos aqui, não vou voltar de mãos vazias. – Disse pegando o livro de volta.

-O senhor não teria algo assim do tipo bonequinhos de cera, com alguns alfinetes? – Jane perguntou.

-Não. – o homem disse secamente.

-Ok Vir, vamos embora daqui. – Jane puxou Vir pelo braço saindo daquele lugar.

Chegaram ao beco e Jane puxou Vir pelo braço.

-Maluca! Por que gastou dinheiro com isso? Não serve pra nada.

-Quem não gosta de Natal é você, e vamos ler, não custa nada, vai que o pirata do Caribe ali tem razão. – Jane riu.

-Bem que o pirata ali podia ser o Johnny Deep ou o Orlando Bloon e não aquele molusco.

-Bem… Seria um bom desejo também.

As duas riram e voltaram para casa.

À noite, Vir pegou o livro e começou a ler.

-Jane, vamos fazer o que está escrito aqui?

-Valha-me Jesus Cristinho, Desejos de Natal não.

-Cale a boca, Jane, e vamos fazer o que está escrito aqui.

-Ai, eu devia ir para um bar e encher a cara.

-Ah, então vamos encher a cara aqui mesmo. Pegue uma garrafa de vinho, e vamos fazer, quem sabe dá certo.

Jane pegou uma garrafa de vinho e duas taças e sentou-se no sofá para ver o livro com Vir.

-Bem, vamos ver o que está escrito. Jane pegue as velas, tem lá na cozinha.

-Aquelas de defunto?

-É. Só tem aquelas, aqui diz coloridas, mas enfim, acho que se a gente pintar de canetinha está tudo certo.

Jane pegou a velas e as pintou de canetinha das cores que pedia no livro.

-Pronto, estão aqui.

-Agora tem que colocá-las em círculo e nós temos que ficar no meio. – colocaram dispostas do jeito que dizia no livro e as duas entraram no círculo.

-Agora a gente tem que recitar estas frases aqui. -Ai espera aí, vou colocar o Il Divo tocar para eu pensar no Urs.

-Tá… Eu vou focar no guela de trovão.

Riram e sentaram no chão no meio do círculo das velas e começaram a beber vinho e dizer em voz alta os dizeres que tinha no livro. Ficaram ali daquele jeito um bom tempo e bebiam vinho rapidamente.

-Ai que ridículas estas frases, parecem brincadeira de roda. – Jane disse rindo.

Riram por um bom tempo e disseram diversas vezes as frases, olharam em roda e nada acontecia.

-Ai minha cabeça está girando. – Jane disse.

-A minha também.

-Isto não funciona não tem alfinetes, vou dormir.

Jane e Vir apagaram as velas e foram para seus quartos jogando-se na cama, e nem em seus sonhos podiam esperar o que vinha na manhã seguinte. Quando o dia clareou Jane abriu os olhos, virou-se na cama fazendo caretas.

-Ai que ressaca dos diabos. – disse com as mãos na cabeça, ela viu que tinha um aglomerado de cobertas ao seu lado, ela olhou e não entendeu nada.

-Vir, que você está fazendo aqui?

Mas não obteve nenhuma resposta. Jane puxou a coberta e quando viu quem estava deitado na cama ao seu lado gritou escandalosamente pulando da cama indo parar colada na parede, respirando ofegante e com os olhos arregalados. De repente ouviu um grito vindo do outro quarto, era Vir. O homem levantou, sentou-se na cama e olhou para ela meio sonolento e assustado, os dois se encararam por alguns segundos com os olhos arregalados.

-Ahhhhh. – os dois gritaram juntos.

Jane abriu a porta do quarto e saiu correndo pelo corredor e deu de cara com Vir apavorada que havia saído correndo de seu quarto, as duas se chocaram e caíram sentadas no chão, se olharam com os olhos arregalados.

-Urs está na minha cama! – Jane gritou.

-Carlos está na minha cama. – Vir gritou.

-Aaahhhh. –  as duas gritaram juntas novamente.

Urs levantou e foi até o corredor e Carlos também. Quando todos se  entreolharam, Vir e Jane se agarraram, todos novamente gritaram juntos em pânico.

-Aahhhhhh.

-Onde estamos? – Carlos perguntou assustado.

-Na minha casa. – Jane disse com o coração prestes a saltar pela boca.

-Como viemos parar aqui? –  Urs perguntou.

-Vudu. –  Jane disse ainda agarrada em Vir no chão do corredor.

-Não era vudu, era um pedido de Natal, desejo de Natal, ah acho que é a mesma coisa. – Vir disse meio atrapalhada.

-Ai meu Deus! Eu estou bêbada e delirando, vou ver se é de verdade. – Jane engatinhou até Urs e beliscou sua perna, ele gritou sentindo a dor. -Ai minha mãe é de verdade. – Jane gritou quase tendo um espasmo.

-Tudo bem, não estou entendendo nada, o que está acontecendo aqui? – Carlos perguntou.

-A gente fez um pedido de Natal e ele se realizou, vocês vieram parar aqui. – Vir disse completamente em pânico.

-Isso é piada, onde estamos? – Urs perguntou.

-Nova York. – Jane respondeu.

-Minha nossa. – Urs gritou sem entender nada.

-Nossa, é verdade, estamos aqui sim, Urs, olha a Estátua da Liberdade ali. – Carlos falou espantado ao visualizar a paisagem pela janela do apartamento.

-Vir, eu vou desmaiar. – Jane disse.

-Não desmaia não, senão vou ficar perdida aqui sozinha com estes dois.

-Como se isso fosse um problema.

-Mas o que é isso, um sequestro? Eu estava dormindo na minha cama em Londres e agora estou em Nova York? – Urs gritou.

-Ai sequestro? Quem sequestrou quem? – Vir perguntou.

-Claro que foram vocês, ou acha que eu me sequestrei sozinho? – Urs  gritou

-Eu não fiz nada. – Jane disse.

-Tá… Então vão dizer que vocês também foram sequestradas? – Carlos perguntou.

-Não, eu moro aqui.

-Eu também.

-Vou chamar a polícia. – Urs disse.

-Polícia? – Vir e Jane gritaram juntas se olhando.

-É isso mesmo, isso é um sequestro, então vou ligar para a polícia. – Urs pegou o telefone, mas ele estava mudo. – Não funciona. – Urs viu um celular encima da mesinha e o pegou, tentou ligar, mas também estava mudo. -Carlos você tem celular?

-Não.

-O meu também não está aqui comigo.

-Ham… Urs, não é por nada não, mas você está de pijama, que por acaso se você estava dormindo não iria guardar um celular no pijama, não é? Aliás, você dorme de pijama? Que fofo! – Jane disse suspirando com um olhar embasbacado.

-O Carlos está de samba canção e camiseta. Aaai meus sais! Jane eu posso desmaiar? – Vir perguntou suspirando.

-Não, se eu não posso, você também não. – Jane disse.

-Será que daria para vocês duas levantarem desse chão? – Carlos disse.

As duas levantaram ajeitando os cabelos.

-Acho que eu preciso de um café, quem sabe eu acordo, não é? – Jane disse.

-Deixa de ser burra, se você acordar, eles somem, fica dormindo que é melhor.

-Verdade, nada de café.

-Ou não estamos dormindo?

-Querem explicar que palhaçada é esta? – Urs perguntou as olhando com as mãos na cintura.

-Ok, tudo bem, vamos pensar, se vocês vieram parar aqui é porque nosso desejo se realizou de verdade, vocês não são frutos da nossa imaginação, então irão passar a noite de Natal conosco, cantar para nós e a melhor parte, vou ganhar meu beijo do Urs! – Jane andava de um lado para o outro resmungando baixo e todos a olhavam sem quase entender o que ela dizia.

-Isto é ridículo, eu vou embora. – Urs disse indignado.

-Eu também vou. – Carlos disse.

Os dois foram até a porta de entrada do apartamento e a abriram, ao invés de ver um corredor normal, viram uma montanha enorme forrada de neve e ainda mais neve caindo, os dois gritaram juntos e fecharam a porta rapidamente escorando-se nela.

-O que foi?  – Vir perguntou assustada.

-O Alasca está ali fora. – Urs disse com os olhos arregalados

Vir e Jane se olharam e foram olhar, abriram a porta tentando empurrar os dois que estavam colados nela e viram o corredor normal, se olharam de novo.

-É… Eu acho que eles também estão vendo coisas. – Jane disse cochichando para Vir.

-Rapazes, não tem nenhuma montanha aqui.

Eles abriram a porta novamente e a montanha continuava lá, gritaram novamente.

Suas mentes lhes estavam pregando peças, que tipo de magia poderia fazer-los ver tantas coisas absurdas, os pensamentos de todos estavam confusos.

-Estamos presos aqui, estou tendo alucinações, devia ter algo na minha bebida de ontem. Urs o que foi que eu bebi ontem? –  Carlos perguntou.

-O mesmo que eu, vinho.

-Vinho? Nós bebemos vinho também, que marca era? -Jane disse espantada

-O que isso importa? – Urs resmungou bravo.

-Ai que mau humor! Bom, parece que vocês estão presos aqui mesmo, e devem ficar até realizarem nossos pedidos, acho que é assim que funciona. –  Jane disse tentando concluir seu raciocínio.

-Que pedidos? – Urs perguntou.

-É, bem, ham, eu pedi que eu queria receber um beijo seu na noite de Natal e a Vir do Carlos.

-Eu não beijo fãs. – Urs disse enfurecido. Aquilo parecia ser uma regra para ele.

-Ah bom obrigada. Depois dessa eu vou deixar de ser sua fã, como você é mau educado. – Jane disse decepcionada.

– Ele não é sempre assim. Como é seu nome? – Carlos perguntou.

-Jane e ela é a Vir.

-Ele só está nervoso, Jane, ele não é grosso assim não. Aliás eu estou uma pilha, não estou entendendo nada, como vamos sair daqui?

Urs olhando para a imensa janela e avistando a escada de incêndio, teve a idéia de sair por ali, mas quando a abriu, novamente via montanhas cobertas de neve e nem sequer a possibilidade de sair, fechando a janela via a vista de Nova York, abrindo-a via as montanhas geladas do Ártico. Sua mente estava a beira da loucura? Ou estaria em um sonho que queria acordar?.

-Estamos presos aqui neste apartamento? – ele disse concluindo os fatos.

-É, parece que é isso mesmo, até vocês não realizarem nossos desejos, estarão presos aqui.

-Que maravilha. – Urs disse se jogando no sofá.

-Está tudo bem, vou fazer um café para nós.

Vir e Jane foram para a cozinha preparar um café.

-Ai meu Deus! Eu não acredito que eles estão na minha casa, nosso desejo se realizou, isso é um sonho, estou com vontade de fazer pipi na calça. – Vir disse eufórica.

-É estão… Mas acho que eu não vou ganhar meu beijo, Urs está com um humor, heim?

-Ai Jane deve ser o susto, quem sabe mais tarde ele se rende aos seus encantos.

-Afe, acho bom. Porque senão isso vai virar um pesadelo. Ai meu Deus do céu como é mil vezes mais lindo pessoalmente, chega me dá um espasmo de olhar para aqueles olhos puxadinhos dele.Ai senhor, meu coração vai sair pela guela.

-Guela de quem? Do Trovão?

-Não, Vir, da minha.

-Ah tá.

Preparam uma bela mesa de café da manhã para os rapazes, mas estavam meio atrapalhadas e nervosas.

-Rapazes vamos tomar um café, vocês devem estar com fome.

-Ah eu estou faminto. – Carlos disse.

-Eu quero só um café. – Urs disse

-Come alguma coisa Urs, não temos o luxo de vocês, mas tem coisas fresquinhas e gostosas.

-Não sou de luxo.

-Nosso café da manhã é igual ao seu, nada de diferente. – Carlos disse sorrindo.

-O nosso tem croissants. – disse Urs bebendo um gole do café.

-Ah mas isso é por causa do Sébastien. – Carlos disse.

-Ai ai… Eu adoro o croissant. – Jane disse suspirando.

-Qual você gosta mais?

-O de olhos verdes

-O que?

-É que ela chama o Seb de croissant. – Vir disse rindo

Caíram na gargalhada de novo tomaram o café e depois foram para a sala. Sentaram-se no sofá e ficaram conversando, parece que por um momento esqueceram de onde estavam e começaram a rir e conversar sobre vários assuntos. Vir foi mostrar a Carlos os CDs e DVDs deles que elas tinham, Urs olhava para Jane intrigado, ela era linda e quando sorria seu rosto ficava todo iluminado, sentiu alguma coisa dentro dele acontecer, não entendia o que estava acontecendo, mas também estava ficando extasiado com a alegria das meninas, por um momento o nervosismo de estar em outro país saído do meio da noite esvaiu-se. Jane, que olhava para aqueles olhos puxados que pareciam de um gato selvagem, aqueles cabelos compridos que ela tinha vontade louca de entrelaçar os dedos, aquele corpo maravilhoso. Ela tentava loucamente se controlar para não fazer o súbito movimento de beijar aqueles lábios e seu coração que dentro de seu peito explodia de amor e que a única coisa que desejava era um toque. Urs com seu jeito resguardado estava completamente comportado, mas por dentro estava sentindo uma agonia sem fim. Passavam-lhe mil coisas pela cabeça. O que estava lhe acontecendo? Este sonho não acaba? Não seria hora de acordar? Que lábios doces e divinos aquela mulher possuía que seus olhos não conseguiam parar de olhar, mas isso o deixou irritado novamente.

-Será que eu poderia tomar um copo de água? Estou me sentindo estranho. – sua garganta estava tão seca como se estivesse em um deserto que lhe secava as entranhas.

-Tudo bem, é por aqui.

Jane e Urs levantaram-se e foram até a cozinha, ela lhe serviu água e o ficou olhando com um olhar que media cada centímetro do rosto dele, ela não sabia se ria, gritava ou chorava.

-Eu preciso sair daqui. – ele disse bruscamente tentando fugir daqueles olhares fuzilantes

-Nossa! Está tão ruim ficar aqui? – ela sentiu uma profunda decepção ao ouvir aquilo dos lábios dele

-Desculpe, mas não gosto da idéia de estar trancado num apartamento com duas malucas que fazem magia negra e me trancam aqui, quer me explicar como tem uma montanha do Ártico do lado de fora do seu apartamento?

-Ai eu não sei, e eu não fiz magia negra não, só fiz um pedido, e pelo jeito veio estragado, porque eu pedi o chocolate do Il Divo e ganhei um torrão de café expresso, credo que grosso. – ela virou as costas e ia sair da cozinha

Ele a puxou pelo braço e ela ficou bem colada nele fazendo-a gelar do pé a cabeça

-Eu não sou grosso, só estou nervoso e a culpa é sua

-É minha sim, admito, e se você não me soltar, eu não me responsabilizo pelos meus atos

-É? E o que vai fazer?

-Ham, bom, não posso dizer

-Me mande embora

-Realize meu desejo que você vai poder ir

-Já disse que não beijo fãs

Jane ficou enfurecida e soltou-se dele com a decepção estampada em sua face

-Tudo bem Urs, também não quero mais nada de você, vou dar um jeito de te mandar de volta e pode levar tudo que é cd de vocês porque nunca mais vou ouvir nada e nem quero ver você nunca mais. A partir de hoje não sou mais sua fã. – ela saiu da cozinha gritando o nome da amiga enfurecida.

-Viiirrrr.

-Nossa Jane o que foi? Meu Deus eu vou morrer, acho que vou conseguir meu beijo. – Virginia estava embriagada de felicidade

-Eu não, e vou tirar eles daqui agora mesmo

-Ah não vai não

-Vou sim, não quero mais eles aqui, pegue o livro…

-Jane!

-Vamos Vir, não quero mais ele aqui contra a vontade, também não vou implorar um beijo, se ele não quer me dar, então vou mandá-lo embora.

Vir mesmo contrariada atendeu sua amiga, pegaram o livro e começaram a folhá-lo

-Tem um monte de coisas aqui, qual foi que a gente leu ontem? – Jane perguntou

-Ai, eu não me lembro

-Maldito vinho

-Será que é este aqui?

-Sei lá, vamos tentar

Pegaram as velas e pintaram de canetinha como tinham feito na noite anterior, sentaram no meio do círculo e leram as palavras, mas nada aconteceu, Urs e Carlos continuavam no apartamento, Urs abriu a porta e ainda estava a montanha lá.

-Deve demorar para fazer efeito. – disse Vir sem saber o que tinha que acontecer.

Jane o olhou tristemente e teve vontade de chorar.

Urs esfregou as mãos no rosto, esta se sentindo atormentado, agora que iria para casa, queria ficar.

Sentaram calados no sofá para esperar o que aconteceria. Urs não tirava os olhos de Jane que não dizia mais nenhuma palavra, pois nem sabia mais o que dizer a ele, na verdade queria que ele sumisse de uma vez.

Jane olhou para Vir e viu Carlos beijar-lhe, ela vendo aquilo quis morrer.

-Espero vê-la de novo, Vir. – Carlos disse sorrindo para Vir.

-Eu também. Quem sabe da próxima vez você venha pela porta. – ele riu.

-Seria bom.

Urs olhou para Jane com uma cara que ela nem conseguiu decifrar, mas não disse nada.

-Desculpe por tudo isso, Urs, eu não fiz por mal.

-Tudo bem, Jane, sei que não fez.

-Isso é um sonho, amanhã vamos acordar e não vamos nos lembrar de nada, se lembrarmos, será apenas um sonho. Não realizado, mas um sonho, pelo menos pra mim.

-Jane…

Urs ia continuar falando, mas as luzes apagaram ficando completamente escuro. Ficou assim por alguns minutos e quando clareou Urs e Carlos haviam sumido do apartamento.

-Eles se foram! – Jane disse tristemente.

-Jane eu beijei ele, eu beijei ele, meu desejo se realizou! – Vir gritava pulando no sofá como uma criança.

-Vir fico feliz que tenha realizado seu desejo, mas como sempre, eu não. Faz um favor para mim? Traga-me uma faca de cozinha, aquela de serrinha.

-Para que?

-Quero cortar meu pescoço

-Ai Jane não fique assim, sinto muito, mas você pelo menos o conheceu de pertinho.

-É, e odiei. Vou para meu quarto, só fale comigo ano que vem e me faz um favor, se você quiser ouvir Il Divo escute no fone de ouvido, nunca mais quero ouvi-los.

Jane foi para quarto e se jogou na cama, chorou de raiva e de tristeza. Se aquilo era um sonho, virou pesadelo, queria dormir para esquecer, queria acordar para sair do pesadelo. Que mágica estranha que lhe tomou o ser, que mágica havia em ver e não ter, que mágica havia em sentir uma tristeza que lhe corroia o peito dilacerando todas suas ilusões com aquele homem que tanto almejava. Continuaria sem ter o que sempre quis. Onde está a mágica? Se perguntou. Desejo de Natal, realmente ia continuar odiando o Natal agora mais ainda. Ficou jogada na cama o resto do dia e à noite Vir e Jane ficaram juntas em casa para jantar.

-Como eu disse odeio Natal.

-Dessa vez concordo com você, o que deu errado? – Vir perguntou.

-Acho que foi porque a gente pintou as velas com canetinha, o pedido ficou atravessado. Está quase na hora de virar 25, ai que vida triste, se eu ver um Papai Noel na minha frente vou encher ele de porrada.

De repente ouviram a música White Christhmas na rua e ela reconheceu a voz de Urs.

-Mas que droga! Que vizinho que está ouvindo Il Divo?

Ela foi até a janela e ia xingar, mas sentiu seu corpo gelar como um iceberg flutuando nas águas geladas quando viu Urs e Carlos na rua e cantavam.

-Virrrr. – Ela gritou para a amiga que veio correndo até a janela – Você fez aquilo de novo? – Jane perguntou com o coração disparado.

-Eu não.

-Então como é que eles estão aqui de novo?

-Não sei, mas eu vou lá.

Vir pegou o casaco e saiu correndo pelas escadas até chegar lá embaixo. Num segundo estava na frente de Carlos que a abraçou muito feliz. Jane abriu a janela e Urs sorriu

-A Rapunzel pode me jogar as tranças? – ele gritou sorridente mostrando-lhe uma rosa.

-Não, mas a gente pode usar a escada.

Ela pulou a janela e foi descendo pela escada de emergência. Urs veio encontrá-la no meio das escadas.

Ele parou bem na frente dela e foi se aproximando de seu rosto, olhando-a profundamente.

-O que está fazendo aqui? Pensei que tinha voltado para Londres, eu desmanchei aquilo. – disse suavemente

-Eu fui, a magia deu certo, acordei na minha cama. Mas eu saí para ir à banca de jornal e um homem estranho e caolho me atendeu e me deu um certo livro, disse ser mágico.

-Um homem caolho?

-Sim, parecia aqueles piratas e tinha uma risada muito estranha

-Você fez um pedido?

-Fiz, não parei de pensar em você. Sinto muito se fui rude. Ainda dá tempo de realizar seu desejo de Natal?

-Pensei que não beijasse fãs

-E não beijo, mas você disse que não era mais minha fã

-Não mesmo.Qual foi seu desejo?

-O mesmo que o seu. Só que pedi que este beijo fosse o primeiro de muitos…

Feliz Natal. – ele disse sussurrando próximo aos seus lábios.

Ele envolveu seu rosto com as mãos e a beijou docemente. A neve começou a cair sobre eles e finalmente o desejo de Jane se realizou, e viveram a noite de Natal mais mágica que ambos poderiam desejar. Encontrar a magia onde ela não existe é um caminho árduo a se tomar, mas buscá-la dentro de seus corações é ainda a tarefa mais difícil, mas que pode trazer o inimaginável para a vida de cada um de nós, só vive quem acredita nela. Explicação do que houve? A mágica do amor.

Fim

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2 comentários em “CONTO “UM DESEJO DE NATAL”

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